Elói

            

Ilustração por Maria Eloise


Elói Cunha nasceu em 1994, em Belém do Pará, Brasil. Mas não sabe quem é. Não sabe de onde veio o sangue que corre em suas veias, quem foram os povos que lhe deram a cor de pele e a forma dos cabelos.

Sabe que seu avô paterno era negro retinto, mas ele não viveu o suficiente para lhe contar histórias da família. A avó tinha a pele clara, mas como Elói nunca se sentiu confortável na casa cheia de parentes que tinha que conhecer, beijar e abraçar, também nunca se interessou em perguntar sobre de onde veio a avó. E era muito criança para entender que isso teria importância um dia.

Todos os tios, tias e boa parte dos primos e primas têm o nariz grande. É o traço da família. Todos têm cabelos lisos ou ondulados, escuros, e peles que variam da mais escura à mais clara. Elói se enxerga laranja desde a infância.

A família materna é do interior, tem terras que nunca proporcionaram luxo maior que um dia de banho no igarapé. Se divertia com amiguinhos e primos de graus diferentes ajudando o avô a fazer farinha no terreno. Sabe que a mandioca fica dentro d’água, ensacada por dias, antes de ser espremida no tipiti até virar uma massa dura. Depois, é ralada numa peneira e assada no fogo à lenha até virar a farinha quentinha que acompanha o peixe e o açaí no almoço. Ou o frango guisado com arroz e feijão da colônia da janta.

Sua mãe disse que os pais vieram do Ceará e que seu avô era muito ruim, malvado mesmo. Apenas isso. Elói também nunca teve muita intimidade com os avós maternos. Morava na capital do Pará, eles num vilarejo na beira da estrada, a três ou quatro horas de carro na direção do estado do Maranhão. Também era criança demais para perguntar qualquer coisa sobre ascendência. Mal conhecia a palavra ascendência.

Não conheceu o avô paterno. A avó materna morreu quando tinha só doze anos. A paterna se foi cinco anos depois, quando Elói estava no terceiro ano do colégio. Entrou na faculdade aos dezoito e parou de visitar o avô no interior. Ficou doente, mas começou a se politizar depois de três anos e meio de curso. A Universidade lhe abria os olhos para muitas questões, mas não todas.

Dois anos depois, o avô foi diagnosticado com alzheimer. Sua mãe foi cuidar dele, e Elói teve que se cuidar. Já tinha 23 anos. 

23 anos sem saber de onde veio. De que parte da história do país vieram sua cor e seus cabelos? Quem foram seus bisavós? Vieram de que país? Ou nasceram aqui?

Quem é Elói?


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