A Casa [repost]
[Conto criado em conjunto com Beatriz Góes]
“Se vir ou ouvir qualquer coisa, saia correndo
imediatamente.” Foi o conselho que ouvi da minha avó quando tinha oito anos. Na
verdade, este foi um segundo conselho. O primeiro foi: “Nunca atravesse os
portões daquela casa”. Eu deveria ter escutado minha avó desde o primeiro
alerta, pois, mesmo agora, já com vinte e sete anos, não consigo esquecer
aquela maldita música, aquela visão ou mesmo aqueles olhos…
É bem normal que moleques se desafiem para
provar quem é o mais corajoso. Tipo apertar a campainha dos vizinhos e sair
correndo. Também passei por isso. Mas naquela cidadezinha a história era outra.
Os desafios eram quebrar janelas, assustar os bichos ou invadir casas. Coisas
de pequenos vândalos. E eu estava entre eles. “Duvido você quebrar aquele vidro”,
diziam. Alguém ia e quebrava. “Vocês viram?! Acertei em cheio!” Todos saiam
correndo e rindo dos berros do morador. “Seus moleques filhos-da-mãe! Tomara
que a Mulher das Bonecas pegue vocês!”. “Duvido você estourar essa bombinha no
meio daquelas galinhas”, diziam. Alguém ia lá e estourava. “Haha! Vocês viram
quanta pena voando?” Todos saiam correndo e rindo dos berros do dono das
galinhas. “Malditos vândalos! Venham aqui, seus covardes! Tomara que a mulher
da casa da colina pegue vocês!”
“Duvido você entrar na casa da colina”,
disseram para mim.
Entenda: não podia simplesmente dar para
trás. Eu era tido como o mais ousado e corajoso dentre eles. E entrar naquela
casa, nosso pesadelo infantil, seria a prova maior. “Não é você que vive
dizendo que não acredita mais nessas histórias bobas? Pois então vá e entre na
casa da mulher das bonecas de noite e sozinho!”, disseram, praticamente me
empurrando em direção à maldita residência.
A casa caiada de dois andares parecia se
sustentar sobre si mesma à custa de feitiço. Era o que sempre contavam nas
histórias. Revirei os olhos ao atravessar o portão enferrujado, rezando para
que ela somente não desabasse enquanto eu estivesse lá dentro. A casa parecia
me vigiar desdenhosamente, desafiando-me a desbravá-la, como pretendia. Vi um
vulto branco passando rápido por uma das janelas ao mesmo tempo em que uma
rasga-mortalha piou estridentemente no céu. Ofegante de susto dei um passo para
trás. A habitação parecia ainda mais sombria sob a fria luz do luar… Mas eu não
podia permitir que minha neurose infantil tomasse conta e me fizesse correr
como um cachorrinho assustado para o colo da vovó. Já tinha treze anos. Estava
mais que na hora de superar aquele medo estúpido e infundado. Fora minha
imaginação covarde que plantara aquele vulto na janela. Respirei fundo e
entrei.
Fedia à mofo, serragem e ferrugem salgada
dentro da casa. A única luz era a que entrava pelas janelas. A porta gemeu
quando cautelosamente a empurrei, de mãos trêmulas. Deixei-a escancarada e
adentrei mais na casa. Assim que pisei no corredor principal, uma melodia
começou a tocar. Era doce e repetitiva, vinda não de um aposento específico,
mas da casa inteira. Como se esta fosse uma enorme caixa de música viva. O meu
coração começou a bater em disparada contra o peito, louco para fugir
dali.
Foi quando prestei atenção em outro som. Um
insistente bater de peças de madeira oca soava por trás da melodia. A reação
natural de sair correndo abandonou meus pensamentos, dando lugar a uma curiosidade
medrosa. Temeroso, fui em busca da origem daquele segundo som me esgueirando
pelas sombras – até que cheguei numa sala. Uma sala cujas estantes estavam
repletas de brinquedos. Pelúcias, bonecas e marionetes. Todas cobertas de pó e
com algumas manchas negras em torno dos olhos, das bocas ou dos pulsos. Não
distingui o que era e, indiferente, continuei a correr os olhos pela sala até
que reconheci uma antiga cadeira de balanço na escuridão. Era de lá que vinha o
bater de madeira oca. Agora acompanhado do rangido da madeira balançando.
A melodia, o som da madeira, o ranger da cadeira de
balanço. Tudo combinado formava uma sinfonia aterrorizante, onde faltava apenas
a voz. E ela veio. Um “lálálá” no mesmo ritmo que ecoava pala casa inteira.
Como se ninasse uma criança. Tapei os ouvidos e deixei escapar um pequeno
gemido de agonia. A música parou. Um silêncio sepulcral caiu sobre aquela casa.
Senti calafrios quando percebi que a dona da voz lentamente se voltava para
mim. Por detrás dos cabelos negros e escorridos pude ver seus olhos injetados
na pele cadavérica: eram olhos sem vida. Olhos de boneca. O pânico se estampou
em meu rosto quando vi as marcas de linha em seu pescoço e ouvi o convite sair
de seus lábios. “Quer brincar, meu pequeno?”, ela disse, oferecendo para mim as
marionetes penduradas em seus dedos.
Os olhos dos bonecos, diferente dos dela, exprimiam terror.
Só então notei a semelhança com os outros brinquedos. Os olhos de todos eram
humanos e, as tais manchas, eram sangue. Sangue seco que antes havia escorrido
dos olhos, bocas e mãos das crianças que ela havia sequestrado.
Sem pensar duas vezes, saí correndo daquele lugar maldito
com as palavras da minha vó ecoando na mente: “Dizem que quem olha nos olhos
dela, é perseguido por eles por toda a vida. E quem escuta seu ninar nem nos
sonhos tem paz.”
Ela tinha razão.

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