Ilustração por Maria Eloise Eu odeio poesia. Não vivo sem arte, Mas odeio poesia. Odeio como me dizem que devo ler. Odeio como ela me lê sem que eu dê permissão. Por que acha que sabe tanto sobre mim? E por que parece que sabe tanto? Eu odeio poesia. Poderia apagá-la da minha vida, Da minha arte, Do meu respirar, Do meu olhar... Queria destruí-la. Assim, ela não me causaria desconfortos, Nem mágoas, Nem constrangimentos, Nem arrepios na pele. Eu odeio tanto a poesia que queria que ela fosse eliminada da arte. Porque não vivo sem arte E odeio poesia. Disseram que a poesia não é um poema, Como este que escrevo. Poesia é uma sensação, Uma ânsia, Um calafrio. Um constrangimento quando nos sentimos especiais, Pois aquilo, aquela poesia (Que pode estar num quadro, numa palavra, numa dança) Conseguiu nos afetar, nos ler. E pensamos: “isso foi para mim?” E nos sentimos especiais. Eu odeio poesia. Ela mente para mim, Me faz achar que o mundo, as...
Foto: Maria Eloise Albuquerque Ave Marie, tão cheia de loucura A Deusa é contigo se quiseres Bendito é o prazer das mulheres Tal como os lábios brandos de doçura. Doce mel colhido em noite escura Pelo toque mais gentil dentr’os seres Tu escondes do mundo sem saberes Que aí a alta graça se figura Foi Vida que te deu. Não tem vergonha Do presente dado e o desfruta: Ama do teu corpo a formosura; Ouve tua voz e com ela sonha; Goze da graça de origem bruta E descanse, musa amada e pura.
Gilberto estava cansado. Gilberto deitou-se. O chão era quase tão gelado quanto os julgadores corações humanos. Gilberto chorou uma última vez. Ele sabia. Tinha a mais absoluta certeza. Seria a última vez. O último choro, a última alegria, o último prazer, o último suspiro de alívio. Gilberto desistira da Felicidade; era ela apenas uma musa inalcançável, dama intocável, ídolo imune e indiferente a seu desespero e desgraça. “Felicidade... Maldita rainha das meretrizes mais imundas dos subúrbios mais decaídos!” Gilberto desdenhava aquela que já não lhe olhava nos olhos, que fazia questão de não permitir-lhe seu gosto cálido, que dançava diante dele de orgulho inflado. “Muitos tocam-me, beijam-me, provam-me, e tu nada podes... Coitado e miserável Gilberto... Alguém acaso lembra ainda quem és?...” O corpo envenenado de tristeza e amargura treme convulsivo. O frio não se faz sentir mais. A madrugada segue calada, seu silêncio a confortar as almas moribundas das esquinas. O ...
Comentários
Postar um comentário