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A musa traiçoeira

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Gilberto estava cansado. Gilberto deitou-se. O chão era quase tão gelado quanto os julgadores corações humanos. Gilberto chorou uma última vez. Ele sabia. Tinha a mais absoluta certeza. Seria a última vez. O último choro, a última alegria, o último prazer, o último suspiro de alívio. Gilberto desistira da Felicidade; era ela apenas uma musa inalcançável, dama intocável, ídolo imune e indiferente a seu desespero e desgraça. “Felicidade... Maldita rainha das meretrizes mais imundas dos subúrbios mais decaídos!” Gilberto desdenhava aquela que já não lhe olhava nos olhos, que fazia questão de não permitir-lhe seu gosto cálido, que dançava diante dele de orgulho inflado. “Muitos tocam-me, beijam-me, provam-me, e tu nada podes... Coitado e miserável Gilberto... Alguém acaso lembra ainda quem és?...” O corpo envenenado de tristeza e amargura treme convulsivo. O frio não se faz sentir mais. A madrugada segue calada, seu silêncio a confortar as almas moribundas das esquinas. O ...